18.3.10

Inspirações

por vezes escreve porque se lembrou dum assunto, porque uma certa memória está bem presente e conforta o seu hoje. por vezes escreve porque se deixa afectar por uma qualquer onda de tristeza. seja uma daquelas ondas que apenas nos molham os pés, ou das outras pujantes em que andamos num turbilhão, como se estivéssemos numa qualquer máquina de lavar roupa. por vezes escreve inspirado por alguém, por uns olhos azuis, por um cabelo dourado, por um sorriso rasgado por um corpo delgado, ou por um perfume suave que ainda sente. por vezes escreve porque gosta, e porque sempre pensou em como seria bom se tivesse o tal jeito para escrever e juntar palavras que outros entendam. enquanto não descobre esse jeito vai escrevendo para si próprio, coisas que os outros talvez não entendam.

por vezes não consegue escrever, passa um dia ausente. por vezes não consegue escrever e sente falta de exteriorizar e entrar em contacto com algo ou alguém. é nesses dias que se vê obrigado a abrir um qualquer livro: lê a primeira frase, escreve-a. apenas lê a primeira frase de um livro e transcreve-a para o papel, para o monitor, para algo. depois da primeira frase, depois de desenhar letras, depois de tocar nas teclas do seu computador, as palavras vão surgindo naturalmente.

escreve sem sentido, sem querer chegar a algum lado. partiu de uma frase que não sua, irá chegar a algum lado que sinta ser seu. pelo meio, muito terá de percorrer, por vezes não saberá onde está. parará para ler e não encontrará um sentido. mas continuará a escrever, a partir da frase que não sua, e chegará ao seu destino. de preferência umas reticências, porque a vida certamente não acabará ali, e outro momento surgirá para que possa dar continuidade ao que começou com uma frase que não sua...

6 comentários:

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    Editar A inspiração* disse... Não consegues imaginar o quanto me identifico com este texto.
    É extremamente reconfortante notar que há alguém que acaba por me entender.
    Quantas, mas quantas vezes tentei eu, conseguir passar para um papel o que realmente pretendo? Tenho paixão pela escrita, mas continuo a sentir que tudo o que estou a deixar sair não é suficiente para se comparar a tal feito. Gostaria de o conseguir fazer... Contudo, acabo por cair na realidade e volto a riscar tudo. Para quê pegar nas ideias de alguém realmente apto para a escrita? Sou só mais alguém a tentar enquadrar-me a um mundo no qual ao não pertenço.
    Inspiração? Pensava eu tê-la! Até encontrar então textos como este, só como um pequeno exemplo! Que hei-de fazer? Ouvir uma música e escrever sem parar? Não, não me sinto bem. Um dos principais desafios com que já me deparei foi pegar nas tais frases mais sublimes e desenvolver ideais encadeadas e lógicas a partir delas... A minha principal barreira é a minha mente. Não me deixa chegar a outras dimensões... É a minha confiança, as minhas maiores traiçoeiras. Que hei-de eu de fazer? Continuo sem respostas.
    Porém, todas estas inquietações dão-me enorme motivação para continuar neste tantiva que parece tornar-se infinita e sem alguma resposta! Nos dias mais chuvosos, lá vai saindo um ou outro poema.. Ponho-me a ouvir um daqueles sons mais melancólicos e tento encontrar as tais respostas! Serás tu a real e verdadeira inspiração? Talvez tenhas sido, continuo sem saber mais uma das respostas..
    Esta luta diária que continuamente me desafia é realmente satisfatória e confusa também. Será todo este comentário uma grande trapalhada? Não sei, descobre tu! 'enquanto não descobre esse jeito vai escrevendo para si próprio, coisas que os outros talvez não entendam...'

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  2. :) fico contente com este comentário!

    também passei pela fase da vergonha e falta de confiança no que escrevia. comecei por um caderno que guardava com um sigilo total. não mostrava a ninguém. talvez possas começar por ai. essa vontade misturada com a tal música de fundo, ou com a chuva melancólica e sempre inspiradora, por vezes ajudam!

    ou então...pura e simplesmente escreve sem te preocupares com o que os outros pensam. vai escrevendo para ti, coisas que os outros talvez não entendam. escreve coisas com sentido, sem sentido. escreve o que te passa pela cabeça. vais ver que aparece alguém que também se indentificará com o que escreveres! e aí começará a ser ainda mais fácil.

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  3. "oh can't you see what love has done?" como cantou o Bono umas milhentas vezes poderá enquadrar-se no tema? creio que sim. umas das respostas para a razão da existência da inspiração é, sem dúvida, o "love" que nos consome. talvez até seja a única resposta verosímil. o que poderá não nos suscitar interesse, não nos permitir dizer "amo-te", não viver dentro de nós e ter maravilhoso impacte? niente.

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  4. Queria conseguir escrever algo único, transcendente… Algo como estes pequenos detalhes que tu aqui nos deixas. Todavia, esta missão na minha mente tem sempre a mesma resposta e a mesma conclusão… É algo impossível! Este meu hábito da escrita só surge em diversas épocas, e esta é proporcionada pelo facto de me teres mostrado este teu blog. Este ‘bichinho’ que já há muito me acompanha, alcançou-me! Devo confessar que alguma inveja se instaurou em mim… Por pura e simplesmente não conseguir ser tão sublime e eminente como grandes autores… E este sentimento não é lá muito agradável, mas acredito que compreendes o que te estou a querer dizer
    Uma das áreas que maioritariamente se apodera de mim é a poesia… Para muitos, algo sem estúpido e sem significado algum. Para mim, é algo tremendamente diferente. Identifico-me com muitos dos autores românticos, com a simbologia e a fragilidade que as suas palavras nos impõem! Não consigo passar por indiferente quando me são relatados ou quando eu mesma ouço comentários relativos a poetas ou poetizas… ‘Que ganda seca!’, ‘O quê? Poesia? Por amor de deus…’, ‘Tenho mais que fazer!’… Porquê é que não tentas entrar nesta dimensão única e bela, em vez de comentares assuntos sobre os quais nada sabes? Que nervos. Cresce e aparece, sinceramente…
    Já me embarquei dentro deste mundo e penso que obtive resultados positivos e negativos. Naquela altura, aquelas palavras representam o que estava a experienciar e o que sentia… Porém, passado algum tempo, e com uma outra atitude, já nada parece fazer sentido… E as dúvidas prevalecem. Este próprio texto teve um resultado estupidamente inesperado, como todos os que componho têm. É assim, é o que me faz amar a escrita. Para ti nada do que escrevo pode parecer correcto ou sequer possuir algum real conteúdo… Nas minhas permanentes ideias flutuantes a maioria não perfaz qualquer sentido! O que acaba por predominar e sobressair é o alívio com que eu fico! Estou livre, não sinto pressões, não estou meramente importada com o que os outros irão achar (um pouco, talvez), não sinto medos! E não, não é solidão, como muitos lhe chamam…
    Continuarei e persistirei, desabafando com um amigo invisível, com mais uma página em branco por completar. Vou chorar, sofrer, crescer, sorrir, dominar, suportar… E acima de tudo, serei eu própria, algo e consequentemente alguém que possivelmente nem eu conheça!

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  5. uff, és profunda! não estranha, de todo, apreciares poesia. sim, refiro-me a ti, à a inspiração *. faço minhas as tuas palavras, inteirinhas (letra a letra). porém, detesto (d-e-t-e-s-t-o) poesia. literalmente. e não é por isso que não percebo ou alcanço. não me suscita interesse nem me transporta para uma outra dimensão, essa a que te referes. no entanto, cá estou eu. gostos não se discutem :)

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