sentia dificuldades em adormecer. deu voltas e voltas entre lençóis, até que estes se começaram a afastar do colchão que vinham protegendo. como teimava em não conseguir fechar os olhos e adormecer, decidiu levantar-se e passar para o seu novo caderno as razões que o mantinham afastado de umas boas horas de sono.
não precisou de pensar muito para saber o que escrever, para confessar o que o deixava de olhos bem abertos, para confessar o que o deixava exausto. começou a escrever sobre o cheiro que ainda vivia na sua almofada, o cheiro do cabelo perfumado que tantas vezes fez com que fechasse os olhos na ténue esperança de que o olfacto se tornasse ainda mais activo. escreveu sobre o quão difícil era virar a cara para a almofada que não estava a usar e sentir um aroma familiar que agora se ia transformando numa realidade distante, numa memória castigadora. tentou descrever o turbilhão de dúvidas e desconfianças, lembranças e esperanças que o iam assaltando, deixando-o a deambular por fotografias do passado com os pés bem presos um no outro. perfeitamente presos para que caminhar se tornasse mais penoso e moroso. para que fosse obrigado a demorar a sair do desfile de imagens do antes, as imagens que sentia não poder repetir, as imagens que queria repetir.
o aroma. aquele aroma. mantinha-o acordado e aumentava-lhe a temperatura. dobrar os lençóis para trás já não era suficiente, a temperatura continuava a aumentar, e lá fora o vento não soprava.
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