9.3.10

Pelos caminhos...

chegou a uma cidade que não a sua. 

caminhou. aventurou-se por trilhos que não conhecia. foi criando pontos de referência para não se perder. perdeu-se. a certa altura não encontrava pontos de referência, não conseguia situar-se. não saberia dizer se estava perto ou se estava longe do ponto de partida.

passos. foi dando um após o outro. seguia pessoas, seguia vultos. não tinha um rumo definido, tinha as horas à sua mercê, podia caminhar até se cansar, até as pernas pouco preparadas dizerem que já era suficiente, que não aguentariam mais.

se o semáforo para peões acendia a luz vermelha, continuava a sua caminhada, não virava. respeitaria todos os sinais luminosos que encontrasse. estava verde? então atravessaria a rua. sozinho ou num banho de multidão, atravessaria. olhava em redor, via construções diferentes. umas recentes, outras antigas. como as pessoas, umas antigas, outras recentes. umas com histórias para contar, as outras com histórias para ouvir. e ouviam mesmo. aos trios, com as mãos pelas ancas, ou com os braços caídos ao longo do corpo, contavam episódios que tinham marcado. aventuras do quotidiano, que lhe tinham acontecido, que tinham ocorrido na vida de conhecidos. acrescentavam uns detalhes, para dar mais sabor, para prender mais a atenção de quem gostava de ouvir mais uma estória.

passou ao lado destas histórias, ouviu uma pronúncia diferente da sua. gostou do tom cantado com que se ditavam as desventuras de uma vida. ouvi impropérios diferentes dos seus habituais, sorriu. aventurou-se por ruas estreitas, daquelas bem antigas, das que existem em todas as cidades. sentiu o cheiro da história, tentou imaginar-se dentro daquelas casas decanas, sem o seu habitual conforto. 

sem saber bem como conseguiu voltar ao ponto de partida. caminhou durante largos minutos, várias horas. começou antes do sol atingir o seu ponto máximo, só interrompeu para comer qualquer coisa numa casa típica. uma iguaria tradicional, teve de ser. depois disso continuou a caminhar rumo a um lugar que não saberia definir nem qualificar. começou antes do sol atingir o seu ponto máximo, interrompeu, recomeçou, só parou quando os raios começaram a fraquejar e o sol teimava em fugir para que o céu se deixasse dominar por cores escuras.

quando chegou a uma cidade que sentia sua, pode dizer que acabou cansado, mas sentiu que valera a pena.

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