28.3.10

O estreito de ferro

desde cedo se habituou a andar sozinho. fosse de bicicleta, de autocarro ou a pé, cedo se habituou a viajar sozinho, ao seu ritmo. curiosamente, e apesar de toda a preguiça que revelava, preferia caminhar pelo seu próprio pé do que entrar num autocarro ou sentar-se no selim preto da sua bicicleta cinzenta e pedalar rumo ao destino.

gostava de caminhar, no passeio, na berma da estrada, no meio da estrada, em piso de asfalto ou de terra, por atalhos ou por estradas principais. gostava de caminhar de mãos nos bolsos, com a música a correr para entrar pelos ouvidos e animar a viagem. gostava de cantarolar enquanto caminhava, gostava de assobiar ao ritmo da batida que ouvia. gostava de descobrir palavras e frases das músicas que ia ouvindo. palavras e frases que descobria e com as quais se identificava. e por isso repetia a música, repetia enquanto caminhava.

gostava de caminhar ao ritmo dos seus pensamentos, ora melancólicos, ora empolgantes. gostava de planear o seu futuro próximo, gostava de, calmamente, delinear e descobrir detalhes que à primeira vista pareciam embaciados e pouco nítidos. gostava de chegar a conclusões, de tomar decisões sobre coisas supérfluas, sobre coisas importantes. e tudo isto enquanto caminhava, sempre no seu ritmo, ora melancólico, ora empolgante.

gostava quando o trilho que seguia o conduzia até caminhos ferroviários. mantinha as mãos nos bolsos, e equilibrava-se num dos carris. passava a caminhar numa prova de equilíbrio, e não tirava as mãos dos bolsos até que os seus pés tocassem numa tábua ou nos milhares de pedras cinzentas que enchiam a linha. quando tocava no chão, rapidamente voltava para cima de um dos carris. desta vez tiraria as mãos dos bolsos. abria os braços e procurava uma posição de maior equilíbrio. os passos eram mais calculistas, a caminhada preparada com cuidado. tentava percorrer uma distância maior num reduzido espaço que convidava ao equilíbrio.

gostava de caminhar sobre os carris que cobrem Portugal.
talvez por sentir a infância regressar.
talvez por se abstrair de tudo o resto.
talvez por conseguir encontrar o equilíbrio.
talvez por...

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