pouco ânimo tinha para se divertir. a falta de paciência para trocar sorrisos fazia de si uma presença pouco convidativa em aglomerados sociais. quando lhe faltava a energia para esboçar alegria preferia isolar-se, ouvir a calma música que ia comprando em negócios que, algures no tempo, lhe pareceram boas oportunidades de investimento. preferia ouvir a noite passar, e na protecção da sua sala continuar absorto, deixando apenas a audição a funcionar, desligando os restantes sentidos, ouvindo mais um disco comprado em leilão.
um dos seus problemas sempre foi reagir mal à insistência de terceiros. o que começava por ser um 'redondo não', facilmente passaria a ser um 'talvez', para terminar num 'sim, ok, vamos lá'. naquela noite, como em muitas outras anteriormente, a sua resposta começou por ser um redondo não. mas já o conheciam, já sabiam que iria ceder. insistiram, voltaram a convidar, deram-lhe outros pontos de vista. obviamente, deixou-se levar. aceitou. talvez sair de casa não fosse assim tão mau. não queria, não sentia essa vontade, preferia estar sozinho, mas deixou-se guiar por quem lhe queria bem.
esta noite a festa era numa casa particular. numa daquelas moradias com grande jardim, com a presença do típico baloiço a apelar a uma qualquer deixa de interacção corporal ou sentimental entre duas pessoas. quando chegaram, ia olhando para tudo, avaliando onde poderia refugiar-se caso a noite não seguisse o seu rumo natural, caso a música que ia passando não lhe levasse os pensamentos menos positivos, caso a alegria dos corpos dançantes não entusiasmassem o seu a seguir o ritmo que ia sendo imposto.
a noite estava quente, as roupas eram curtas, frescas, simples adereços que mais tarde seriam retirados dos corpos em que agora poisavam. alguns presentes tentavam fazer da roupa uma forma de chamamento a terceiros. queriam ser notados, queriam ser olhados. procuravam um olhar para responder com um sorriso, duas palavras e um convite ousado.
para não se sentir tão deslocado avançou até ao balcão mais próximo, escolhendo a morena mais próxima cuja função era distribuir sorrisos e bebidas, deixando que os homens soltassem as suas notas e moedas enquanto se perdiam nos banais olhos castanhos que pareciam brilhar naquela noite quente, que paravam a olhar para a sua pele morena, que não conseguiam desviar os olhos do seu pequeno mas cativante decote. não se perdeu em nada, não deu atenção aos apelos corporais de quem tinha à sua frente. apetecia-lhe algo doce. pediu o seu Tequila Sunrise e seguiu, caminhando e descobrindo a multidão.
procurava o seu grupo de amigos. ia olhando para grupos femininos que por ali dançavam. talvez os seus amigos estivessem perto, aproveitando cada passo de dança para se aproximarem da jovial alegria que as mulheres transmitiam. no meio de tanta gente parecia estar sozinho. queria que a música o guiasse mas não estava fácil. os ritmos que ouvia no exterior em nada condiziam com o que ouvia no seu interior. tentava, pedia para aumentarem o volume. tentava, e aos poucos julgava conseguir. sabia estar numa daquelas noites em que um pequeno obstáculo o deitaria no chão. reconhecia que de muito necessitava para poder chegar a casa feliz, sabia que pouco seria suficiente para o deixar pior.
nunca gostou de tabaco. apenas do aroma inicial, de quando alguém acende mais um cigarro. apenas isso lhe agradava. tudo o resto rejeitava, tentava afastar-se. não gostava dos efeitos, não gostava do sabor na boca delas, nem do cheiro que se agarrava a cabelos e roupas. não gostava do ambiente pesado que ficava.
animada, de cigarro na mão, aceso, já meio consumido, dançava alegremente - os braços moviam-se para os lados e para cima, as ancas pareciam procurar quem as ladeasse, o seu sorriso brilhava. estava contente. cantava para as suas colegas, parecendo ignorar tudo o resto. pelo menos ignorou-o. tanto que sem o ter visto decidiu que o seu braço seria um bom local para encostar o seu cigarro. encostou-o, queimou-o, tirou-lhe o bom momento. só quando ouviu o grito de dor se lembrou que poderia estar a fazer algo de mal. quando reparou que lhe tinha tocado, rapidamente tirou o braço. não pediu desculpa. se pediu, ele nem a ouviu.
sabia estar numa daquelas noites em que um pequeno obstáculo o deitaria no chão. aquele pequeno momento de dor tornou-se no pequeno obstáculo. mexeu os pés, num ritmo completamente disforme ao que ecoava, olhava para o vazio. esvaziava copo atrás de copo. reconhecia que de muito necessitava para poder chegar a casa feliz, sabia que pouco seria suficiente para o deixar pior.
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